Sobre a resiliência


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Tenho evitado, sob esforço racional, tecer quaisquer comentários ” versejando ” sobre as relações estéreis, sem propósito de bondade e coisas do tipo, porque afinal de contas, eu ainda acredito na humanidade! Até agora! Caraca ( aqui caberia um palavrão de maior monta, mas “caraca” serve )! O que estou fazendo aqui? Aonde deposito a minha preocupação com o outro? O que faço com aquele cumprimento que acredito ser necessário para endossar qualquer início de relação? Recentemente, aguardando a hora de me apresentar para uma “intervenção poética” ouvi de um dos oradores ( brilhantemente, por sinal ), pras minhas surpresa, ingenuidade e até ignorância, que especialistas no trato humano, estão a discutir um novo neologismo: a “GENTIFICAÇÃO”, que entre outras coisas significa que devemos nos “REEDUCARMOS PARA GOSTAR DE GENTE” . Isso aí! O que estou fazendo aqui, quando um usuário do serviço em que exerço minhas atividades, depois de avaliado e constatado que o quadro dele seria “ESTÁVEL”, com o mínimo de risco possível ( à vida ), resolve, indignado, questionar-me sobre a razão de eu ter priorizado outro usuário com complicações cirúrgicas , febril, que chegou depois dele? – ” Só porque ele está de muletas pode entrar na minha frente? ” Outro dia, uma senhora praguejou contra mim, chateada com a demora no seu atendimento, simplesmente porque apareci na frente dela: – ” Quero que tu sintas toda a dor que eu estou sentindo “. Eu não seria o responsável pela demora e tão pouco, poderia sob aquelas circunstâncias agilizar o atendimento e acabar de “imediato” com a sua aflição em detrimento dos demais. Eu sorri. Depois, quase chorei por conta das coisas que insisto em acreditar e “dar de cara” com a desgraça humana . Relações vazias. Não mais que um quinhão. Hoje, fui procurar um serviço imobiliário em determinado endereço e razão social consagrados; entrei na loja ( antes disso, limpei meus sapatos no capacho à entrada do estabelecimento, como é de bom tom, especialmente nos dias chuvosos ). Dali, do balcão, avistei três jovens em uma animada conversa. Depois de dois ou três minutos, percebi que “EU NÃO ESTAVA ALI” e que eles não queriam ser interrompidos, como bons atores ( péssimos atores ), fingiram escancaradamente , não me ver ;e eu … permaneci ali, constrangido por eles, mais alguns segundos, para por fim, ” colocar o meu cavalinho na chuva ” . CARACA!!! E dizer que nessa época do ano os PÁSSAROS MIGRAM PRO SUL…

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27 comentários sobre “Sobre a resiliência

  1. Menino,
    Sinto isso amiúde. A forma cartesiana de perceber o mundo, que separa mente/corpo, sentir/agir e outras dicotomias são úteis para algumas intervenções, mas reducionistas quando se trata de visão de mundo. Um dia, eu me considero uma pessoa do bem, com alto grau de empatia, disse a uma paixão da vez: ” gostaria que te contorcesses de dores lancinantes de falta de mim”. Especialmente nos momentos de dor, mostramos o lado egoísta e cruel que todos temos. Nas profissões em que temos que lidar com isso, é preciso ter paciência e muita generosidade consigo e com o outro.
    “Hay Que Endurecer, Pero Sin Perder La Ternura Jamás” (Che Guevara). Boa sorte!

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    • Coisa bem boa você aqui, Ida. Dessas coisas que me preenche de um todo; tal generosidade para com a leitura e a leitura sua da vida e suas particularidades ( vicissitudes humanas ). Sei bem, reconheço tais fraquezas e me oriento à partir delas. Sigamos, afim de melhorar a caminhada…bj no seu coração.

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  2. Vixe… viajei, me vi em vários momentos, me senti tão humano quanto, ou ainda melhor, me revoltei tão quanto.
    Não sei se faço por me sentir melhor, não sei se ouso me colocar como “formador de opiniões”, sim é o que todos diziam quando resolvia soltar o verbo, falar na lata de cara bem a mostra tudo aquilo que se joga para debaixo de tapetes.
    Aqui claro não diferente diria eu que estaria dando pitacos onde não fui chamado, rsss.
    “Caracas” é algo leve para o que acaba de descrever e se me permite, e olha que é difícil me fazer isso escrever, PQP, abreviado para não chocar, mas é uma vontade que tenho de gritar.
    Meu amigo que texto, que reflexão, que momento onde pensamos muitas vezes que só passam conosco.
    Me restou apenas aquela dúvida que não cala, será que eles migram mesmo ou preferem fugir?
    E aqui claro incorporo aquele que ão sou eu e sim o personagem super poderoso o Guerreiro que assume todas as fraquezas que carrego e me coloca em prova. Não colocaria o cavaco no braço e sairia de fininho, quem sabe o quebraria não na cabeça dos meninos mas como um acidente (im)previsível para que com o barulho quebrasse a indiferença.
    Maravilha! Abração! 😉

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  3. Muito bom ler suas palavras, querido, porque desta forma abres um precedente para que nós possamos trocar experiências com você.
    Infelizmente, essa cultura da hostilidade é uma realidade escancarada e ela perpassa todos os ambientes sejam eles educacionais, hospitalares chegando até mesmo ao banquinho da praça. É triste, muito triste, só que na maioria das vezes, graças à Deus, estamos bem alinhados de corpo, alma e paz de espírito para lidar de modo a não sucumbirmos, outras vezes, porém, estamos mais sensíveis e estas questões nos pegam desprevenidos e, se para o bem ou para o mal, tudo nos fará refletir.
    O fato é, e insisto veementemente contigo, que não podemos mudar a essência para sobreviver a esta objetificação do ser, tampouco devemos ceder aos valores umbigocentristas.
    Creia, vc não está só e por mais que seja duro, muitas vezes sobreviver à essa nova condição do mundo frio e hostil, a vida vale à pena porque existem pessoas gentis, amorosas, conscientes e que ainda pensam e compreendem os opressores e os oprimidos.
    A vida é e sempre será a sucessão de atos de resistência e persistência, ou como vc bem definiu, resiliência na humanidade.
    Continue, pelo amor aos deuses e deusas, com esse coração afetuoso e com a capacidade de compreender as subjetividades.
    Um abraço de urso apertado pra ti.

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    • Tomei de presente tudo isso Elaine. É por coisas assim que recorro ao blog como a uma necessidade. Agradeço cada palavra tua e me enriqueço e me conforto com tuas concisões acerca da ideia de continuar acreditando e me manter feito ferramenta; construindo… Bom demais tua acolhida e o aperto deste abraço, senti aqui.

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