Sutilezas XIII


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O que nos faz enobrecer é a partilha do outro. A resposta de uma vida inteira que arde aos olhos feito lucidez, feito percepção da brisa ao marujo.

Como perceber que céu é mais que um teto azul, que chão é mais que broto de poeira e o vento é mais que peito arfando.

Amigos tem natureza simples, simplista e particularmente essencial. Como tudo o que não se constata pela ciência exata, mas pelos olhos, ouvidos, mãos e coração…

Amigos são delicadezas do susto, do riso, do choro, da compaixão. Amizade é uma construção do bem, feito refresco de um riacho depois da subida ao topo da montanha. Amizade é entalhe no mais nobre dos metais.

Ariano


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minha reverência
ao agreste
às pedras de seu povo
ao areal da caatinga
à cultura das fitas tantas
ao brilho
dos seus bonecos
ao compromisso
com a sua brasilidade
minha reverência
ao grito social
à sua mensagem
à ladainha da
riqueza social
do xote ao frevo
ao maracatu
minha reverência
ao barro sacro
às tigelas
aos riachos
d’onde bebem
suas onças
à descrição de suas pintas
e aos rumores
de todo SuAsSuNa …

Hipnos


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um rio deságua em mim
e me arrasta feito riso
turvo e amarelo feito o rio
que deságua em mim feito frio
que arrepia em mim e faz medo
que me desarma e me ata as mãos
o mesmo rio que engasga em mim

um tronco no rio passa por mim
tenho as mãos cerradas e a
cumplicidade do rio que se
encarrega de mim e me carrega
feito riso torto feito o mesmo
tronco do rio que passa por mim

Hipnos fala em mim e me tira disso
e arranca Morfeu dali
tira o frio e devolve o riso
então começo a nadar no mesmo
rio que parecia o fim

Fobos


 

shutters-669296_960_720tive vontade de agarrar o medo
e correr pra chuva
tive vontade de enfrentá-lo
mas tinha o tamanho do mundo
tive vontade de chover na rua
mas molhei meu rosto
tive vontade de correr sozinho
mas a vergonha durou mais
que um ensaio profundo
tive vontade de pertencer ao mundo
mas no fundo…tive medo

Ciente, exata!


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rugiu feito maremoto
num cantinho quase remoto
no segundo espaço do seu quarto
primeiros soluços sucessivos
sem controle sobre isso
apareceram, o que pareceu ser
pela terceira vez, aquela
na Quinta da Boa Vista
avistaram-na no que seria
aquela, a última vez?
era quarta, disseram
que por volta das três
com prontas malas agora
largos e prontos passos
aparentando controle
da sua única vida
apesar da manha felina
a viveria como primeira
e também como se fossem muitas
chegaria no domingo
e na segunda, desembarcaria
pra viver encontaria
os meios do tempo inteiro
e que bastasse a sinfonia
daquele sorriso cativo
e de todo modo certeiro

A-dor-ar II


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e assim privado de tudo
o que sobra é zombaria
e tudo é tentativa vã
e da janela, outdoor
lusco fusco neon
carpe diem, carpe diem
cadê as brumas e toda
felicidade que se preza?
cadê terra firme?
e chão sob os pés?
que pena! apenas papel
e a leveza do nanquim
a que me presto nisso aqui?
senão a-dor-ar?
a fresta, a pressa
a dor do ar rarefeito
e o riso de soslaio
e o soluço que não cessa
e se divertem de mim
e se riem da loucura
que me espreita e arrisco
um, dois gritos no ar
mas sou temeroso e temerário
sou, estou, “verbo” dor

assim, recomeço do alívio
que me resgata do caos
e sê rapport e me serve
insights breves, de leveza
e se apropria e se cria
da última lágrima salina

e cada traço, bem digo
outros processos arrisco
e sofro a perda do razoável
mas gosto do gosto disso
e sorvo, e lambo cada espaço
mal-dito, sou maldito

bem sei que bem sabes
oh alter ego parasita
que me vês fora daqui
fora de ti,fora de mim
escovarei os sapatos
cai fora! parti!

e ocorre que acovardo
oh bardo! meu flagelo
tudo isso ainda é frio
e bem servido desta xícara
percebo ainda dois terços
de tudo o que não queria

canto para qualquer
encanto maltratado
para toda maledicência
tortuosa e despedaçada
n’um discurso ritimado
como n’uma bênção piedosa
aos amores destroçados

quem sabe nunca soube
ao certo se assertivo fui
permita-me se for de valia
avalio que não traguei
da tua garganta o verso
e ignorei se permitias

quer saber de fato?
dependo das tuas preces
e cada agulhada no meu voodoo
cada gota deste vermelho arterial
me envolve às tuas bruxarias
que preciso tanto e tanto

então prescrevo à dor:
o que sobra é zombaria
felicidade que se preza?
a fresta, a pressa
e se riem da loucura
e sê rapport e me serve
e sofro a perda do razoável
oh, alter ego parasita
oh, bardo! meu flagelo
permita-me se for de valia
que preciso tanto e tanto “de”
cada gota deste vermelho arterial