Ignomínia


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sou famoso por arquear
uma única sobrancelha
que nem desconfiam
ser por distúrbio facial
e bem observado à esquerda
pois à direita vejo um mundo
de atores bolas da vez
com um quê de riso ‘opistotonal’
ganhei um Kikito
papel ridículo que faço bem
levei por cinismo tal
do escárnio ao cubo
finjo bem o flagelo
tenho a estatueta oca social

Hipnos


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um rio deságua em mim
e me arrasta feito riso
turvo e amarelo feito o rio
que deságua em mim feito frio
que arrepia em mim e faz medo
que me desarma e me ata as mãos
o mesmo rio que engasga em mim

um tronco no rio passa por mim
tenho as mãos cerradas e a
cumplicidade do rio que se
encarrega de mim e me carrega
feito riso torto feito o mesmo
tronco do rio que passa por mim

Hipnos fala em mim e me tira disso
e arranca Morfeu dali
tira o frio e devolve o riso
então começo a nadar no mesmo
rio que parecia o fim

MalBeck


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tratativas do amor da velha escola
sou um velho maldito tratado no amor
li tudo o que vi de empoeirado
e deslumbrado soprei  pra distante a dor
traquejei minha cintura nos saloons
daqueles livros de traquejos rebuscados
bebi dos lábios daquelas damas
que se engraçavam no meu pescoço tatuado
tratei cada linha dos velhos traços
e gastei cada centavo do meu barato
beberiquei taças baratas de tantos tintos
que rio bobo da dúvida se pra fora eu fui jogado
porquê ousei brincar tirando-lhe da mão o leque
ou sob o efeito de tantos goles, já amaldiçoado
com riso largo, ter ousado: “Mas que Mal Beck?”

A gôndola


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do amor que dói

e também ri

que é íntimo, mas…

publicado na matéria

do mesmo amor que mata

 

ao menos

naqueles versos

de pedaços de céu

e de corpo que crema

 

do amor que suporta a dor

que recorre ao leito

sem cerimônia

e às lágrimas que ferem

o canto da boca cortada

da febre que arde

 

do amor que atura

atua e encena

e despedaça e queima

o mesmo céu que ama