Sutilezas V


sky-404060_960_720

Carrego a lembrança dos trovões, das janelas da minha infância. O prisma das enormes lamparinas à chuva. Em mim, as mesmas cores púberes, dos faróis que me orientavam na caminhada. A noite vaporiza meu rosto ainda e cada canto da minha energia e das minhas intenções. Sofro da síndrome da pele eriçada todas as manhãs.
É que tem tanta energia aqui dentro que lá fora tudo é possível nessa coisa do viver.
Reconheço, naturalmente, que já não chove mais tanto e tão bonito e; quando chove, nem sempre faz maravilhar meu rosto tanto quanto ainda, mas para o meu conforto, ainda vejo n’outros mestres, o brilho da possibilidade de alimentar este espírito em mim, e sigo catando e contando estrelas e uso da experiência dos bons conselheiros para me reinventar. Ofereço novas possibilidades para as mesmas asas.
É que gosto do gosto deste céu e do sabor desta mesma sorte.
Senhoras e senhores, peço-vos licença para me apresentar: eu sou a poesia.

 

Ampulheta


sunset-476465_960_720

nem é dia ainda; nem é noite
ouso abrir os olhos de um só lance
de disparo feito pensamento
depois de ocasos
por acaso, sou um ser sublimado
de olhar crepitante
de um tanto ou mais da verdade
que vejo no horizonte salino
que corrói meu rosto enrugado
sou das trancas, das traças,
das frestas, das tramelas
da longa data malfadada
que da lembrança me parece infante
feito chuva e goteira
feito foto desfocada
minha natureza é apócrifa
mas em nada lembra
a narrativa melancólica
tenho por certo, certa idade
e uso deste enredo
de afins tupiniquins
pra não ser descoberto
usando apenas as exigências
da minha intimidade

nem é dia; nem é noite ainda;
só saudade…